O paradoxo de inovar em grandes organizações – estudo de caso

Com a economia cada vez mais dinâmica, a necessidade de grandes empresas se tornarem mais empreendedoras cresce constantemente. Contudo, essas mesmas companhias precisam lidar com as crescentes questões de compliance, regulação e gerenciamento de risco, que limitam a capacidade de tomada de decisão rápida, experimentação, interação e todo tipo de comportamento esperado para a efetiva inovação nos negócios. Sendo assim, como superar o paradoxo do empreendedorismo em grandes organizações? Essa é uma questão importante: inovar em grandes empresas nunca foi tão essencial, mas o contexto institucional para isso é cada vez mais complexo e limitante.

Este artigo apresenta um excelente exemplo de uma companhia inovadora no Brasil que superou esse paradoxo, a Cetip. A empresa como é hoje, foi formada após a fusão de seu negócio original de registro e operações de títulos de renda fixa com a empresa que operava o Sistema Nacional de Gravames, a GRV. Após essa fusão, foram criadas duas unidades de negócios, a de títulos e valores mobiliários e a de financiamentos. Apesar do país estar passando por um período de arrefecimento das sua atividade econômica, os resultados dos negócios da Cetip têm crescido acima dos indicadores econômicos.

Isso se deu pelo fato da Cetip ter superado o paradoxo sofrido pelas grandes empresas para inovar. Mesmo com uma receita anual relevante e entregando resultados expressivos aos acionistas, a Cetip se mantém atenta em identificar e explorar novas oportunidades de negócio. Visando garantir uma identificação e avaliação mais eficaz das oportunidades, a empresa contratou a InnovationSEED para auxiliar na implementação de uma metodologia voltada para inovação. Com a implementação da metodologia, as oportunidades passaram a ser trabalhadas dentro de um processo científico e o direcionamento de investimentos nas inovações passaram a ser mais facilmente dimensionados e com mais segurança. Uma dessas oportunidades estava justamente no mercado imobiliário, um negócio que a Cetip não tinha experiência prévia. 

Usando as estruturas de inovação baseadas nos conceitos de “Trabalho a ser Feito” (Job to be done), “Planejamento por Descoberta” (Discovery Driven Plan) e “Inovação Disruptiva”, a Cetip decidiu investir em iniciativas para criação de valor para as instituições financeiras dentro do mercado imobiliário. Partindo da necessidade de padronizar e digitalizar os processos envolvendo financiamento de imóveis, a Cetip identificou a conveniência de ter as avaliações de imóveis em uma plataforma que integrasse avaliadores e bancos, criando assim estruturas e processos mais eficientes para a cadeia de crédito imobiliário. A plataforma, além de padronizar e orquestrar os processos de avaliação de imóveis, também possibilita um acompanhamento do valor real de mercado desses bens, com base nas novas avaliações produzidas e nas características padronizadas para grupos específicos de imóveis. Isso permite uma melhor gestão de risco pelas instituições financeiras, uma vez que a análise entre o valor do empréstimo e do colateral pode ser feito digitalmente a qualquer tempo.

Além da plataforma de avaliação de garantias, a Cetip também desenvolveu e oferece plataformas para digitalizar o processo de formalização de operações de crédito imobiliário, como o registro eletrônico de contratos, e também, soluções para o mercado secundário.

As plataforma Cetip para crédito imobiliário, além de trazer uma série de benefícios na cadeia de originação de crédito das instituições financeiras, também traz um benefício adicional para as operações de mercado secundário dessas instituições.

No Brasil, o funding para financiar imóveis é baseado, quase que em sua totalidade, nos recursos de poupança.  Num cenário de economia em crescimento, onde as vendas de imóveis crescem numa proporção maior que as taxas de poupança, a estruturação de operações no mercado secundário para busca de funding para novas operações será uma alternativa muito interessante para as instituições de crédito, como acontece em mercados onde o crédito imobiliário têm um nível de maturidade maior que o brasileiro. A digitalização dos processos de avaliação de garantias, bem como a digitalização das operações de originação de financiamento, possibilitarão aos clientes Cetip o acompanhamento de forma eletrônica de cada contrato e sua respectiva garantia. Os produtos Cetip também permitirão que seus clientes acompanhem de forma mais eficaz e integralmente o comportamento de suas carteiras de crédito imobiliário, criando também um eficiente mecanismo para que os reguladores desse segmento monitorem a saúde do mercado financeiro.

A incursão da Cetip, como uma companhia vencedora, nesses novos mercados, mostra como é possível que grandes empresas confrontem o paradoxo de inovar. Para fazer isso a Cetip teve que passar por um robusto método de descoberta de novas ideias, e ser capaz de avaliar de forma sistemática e converter essas ideias em oportunidades de crescimento. Para tal, teve que criar uma cultura de inovação, num ambiente em que seus times são encorajados a descobrir ideias novas e não-intuitivas, que são exaustivamente testadas contra forças externas e onde os investimentos são feitos sob riscos previamente calculados. Essa realidade é muito diferente do processo de empresas tradicionais, onde a decisão em inovação é feita muitas vezes de forma intuitiva e suportada em processos funcionais e hierárquicos.

A capacidade da Cetip de continuar buscando novas oportunidades de crescimento de uma forma orientada e sistêmica, dentro de um ambiente onde a cultura de inovação é constantemente estimulada, é certamente um dos motivos que a levaram a ter sucesso, mesmo em tempos tão desafiadores. Portanto, o motor de crescimento da Cetip está em uma cultura preocupada em identificar ideias inovadoras e em como transformá-las em resultados, provando ser possível superar o paradoxo do empreendedorismo em grandes organizações.